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quinta-feira, 21 de março de 2013

PARA SE GUARDAR O AMOR

Por Letícia Thompson

A gente nunca deveria se acostumar com amor.
Deveríamos ter sempre essa sensação de novo novidade, como se, cada manhã, descobrindo o nascer do dia nos extasiássemos diante do espetáculo  como se ele nunca jamais tivesse acontecido antes. 
Falta cuidados com o amor, com a nobreza dele  e é por isso que ele se apaga. 
O frio no estômago passa logo que o amor toma posse, o coração bate menos rápido com o decorrer dos dias, a saudade precisa de mais tempo para  ser sentida e os hábitos se instalam.  
A diferença básica entre homens e mulheres  é que a primeira parte é mais racional,  
vê e ouve somente o que quer,  
se satisfaz com mais facilidade  fisicamente e a segunda...  ah, a segunda!... 
essa é a guardadora dos sonhos  que faz com que muitos relacionamentos  continuem até depois que o sentimento acabou.  
As mulheres trazem quase sempre escondido no peito  a caixinha de promessas dos primeiros encontros,  
dos primeiros suspiros, primeiras palavras trocadas,  
elas guardam datas, tentam adivinhar os desejos,  
se especializam em surpresas e esperam  
secretamente ser adivinhadas.  
Algo que aprendi com o tempo foi que  o amor não é um conjunto de compatibilidades,  mas a aceitação das incompatibilidades.  
Não amamos a outra pessoa quando ela tem algo  que nos agrada, mas quando o que não nos agrada  torna-se menos importante, mesmo se continua a existir.  
O amor está na diferença do contrapeso.  
É preciso, para se guardar um amor,  
ter-se a memória fraca para certas coisas  e um coração desesperadamente atento para outras.  
É preciso conhecer certos detalhes  e dar-lhes a devida importância,  apreciar o pôr-do-sol como se fosse a primeira vez  e se dar as mãos como se elas nunca  se tivessem separado.


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